O Caminho da Autonegação

Reflexões em Akegarasu Haya e Shuichi Maida

Shaku Shin Gi

Shonen Suzuki – Oni Nembutsu

1. A impermanência

“Bhikkhus, o todo está em chamas. E qual é esse todo que está em chamas? O olho está em chamas, as formas estão em chamas, a consciência no olho está em chamas, o contato no olho está em chamas, e qualquer sensação que surja tendo o contato no olho como condição – quer seja prazerosa, dolorosa ou nem prazerosa, nem dolorosa – isso também está em chamas. Em chamas com o que? Em chamas com o fogo da cobiça, o fogo da aversão, o fogo da delusão. Em chamas, eu lhes digo, com o nascimento, envelhecimento e morte, com a tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero.”

(Adittapariyaya Sutta)

Tudo no universo está em movimento. Nada permanece estável e todas as coisas estão, a todo momento, se transformando. A estabilidade é um mito e o sofrimento surge ao procurarmos permanência na impermanência. Todas as coisas, sem exceção, estão continuamente se movendo. O que era ontem, já não é mais hoje, e o que é hoje não será amanhã. Esse movimento é inevitável e perceptível a todos. A morte é o exemplo mais claro da impermanência de todos os fenômenos. Tudo que é vivo, morre. As estações mudam, nós envelhecemos, o dia acaba, a noite chega. Um fato tão óbvio para qualquer um que viva, mas ainda sim tentamos negar.

Você é o mesmo que há dois anos? Dificilmente qualquer pessoa lúcida diria que sim. Mas muitas vezes acreditamos que somos os mesmos que ontem, ou os mesmos de minutos atrás, o que também é algo extremamente ilusório. Quantas vezes já não acreditamos que um relacionamento duraria a vida toda, mas nos decepcionamos com o outro e aquilo acaba muito mais rapidamente? Quantas vezes pensamos que poderíamos passar mais tempo com um familiar ou um amigo mas as condições não nos permitiram? Quantas vezes já pensamos que “agora é tarde demais”? Todas as fases da nossa vida passam, às vezes lamentamos tanto por não termos aproveitado os velhos tempos. Mas sempre percebemos também que não há mais nada a fazer, apenas aceitar que tudo muda e que, no futuro, o dia de hoje será de novo esses velhos tempos. “Nosso corpo, que pela manhã ostenta faces rosadas, ao entardecer pode estar transformado em uma ossada branca. Quando sopra o vento da impermanência, os dois olhos se fecham imediatamente e a respiração cessa definitivamente.” (Rennyo Shonin, Carta da Ossada Branca)

É fácil entender conceitualmente que tudo está se movendo, que nada é eterno e que todas as coisas estão sujeitas a mudança. Mas apenas o conhecimento intelectual desse fato não é o suficiente para superar a insatisfação que nos assedia. A sabedoria da impermanência deve descer da cabeça para as vísceras, atingir todo o nosso eu, se tornar lembrança constante.

Tentamos, como indivíduos em uma civilização, esconder a morte, a velhice e a doença enquanto fingimos que existe algum futuro garantido. Acreditamos que no final do mês vamos receber nosso salário, que no final de semana vamos nos encontrar com nossos amigos e família, que aos poucos vamos construir uma grande carreira. A realidade é que essa respiração pode ser a última. Hoje mesmo, independente de quando você estiver lendo, muitas pessoas saíram de casa pensando que chegariam em segurança. Muitas pessoas seguiram a rotina pensando que nada de novo aconteceria e que seria mais um dia como o outro. Quando lemos o noticiário vemos que não há nada mais mentiroso que essa presunção de segurança. Se com eles acontece, o que impediria de acontecer com nós?

A vida é completamente imprevisível. O lado bom disso são as diversas surpresas positivas que temos, que de certa forma também são uma negação de nosso ego. Mas, olhando para os fatos, nós recebemos a maioria das mudanças como algo negativo. Nós gostamos do previsível. A tendência humana é a de sempre escolher o previsível e confortável ao imprevisível e potencialmente desconfortável. Na realidade não importa muito o que a gente quer ou o que a gente espera, sempre vai ter algo para nos destruir em milhares de pedaços. A prática budista é sobre aproximar propositalmente essa destruição em vez de esperar que “o universo” faça tudo sozinho. Ao contrário das práticas espirituais modernas que consistem em “afirmação positiva”, “teoria da atração”, “manifestação” e outras formas de amaciar o ego, o objetivo budista é, cada vez mais, negar o que a gente acredita e o que a gente quer. É aceitar completamente a impermanência.

Esse texto foi escrito como uma forma de expor, de forma grosseira e pouco erudita, o que significa, na interpretação desse leigo ignorante, o caminho da autonegação iniciado pelo Honrado Buda Shakyamuni, desenvolvido pelo grande fundador do Shinshu, Shinran Shonin, e exposto de forma mais clara pelos mestres modernos Akegarasu Haya e Shuichi Maida. Tudo o que for dito de útil é de total autoria dos mestres, tudo o que for dito de enganoso é de total responsabilidade minha.

2. O apego

“O desejo instintivo do espírito nunca permanece em um único lugar: está sempre se movendo de criação em criação. A manifestação concreta desse instinto é nossa própria vida. Mas, no instante seguinte, ela já começa a endurecer. Um novo desejo instintivo começa a se desdobrar, enquanto o primeiro, já velho, endurece e se transforma em uma casca. Essa casca é a tendência de nos tornarmos convencionais, fatalistas ou presos a ideias e circunstâncias fixas, todas elas aprisionando o verdadeiro desejo e gerando confusão. Por isso, para permitir que nossa vida cresça e se desenvolva, precisamos romper continuamente essa casca endurecida.”

(Akegarasu Haya, Thoughts about Destruction)

Mesmo com a crença intelectual da impermanência, nós continuamos reproduzindo o mesmo processo mental de apego. O apego é a atitude mental de tentar agarrar coisas. Tentar fixar algo que é impermanente, tentar congelar a realidade. Essas nossas tentativas de agarrar a realidade são, de fato, a nossa fonte de sofrimento e de insatisfação. Além de nos fazerem sofrer, elas são totalmente inúteis. Tentar agarrar a realidade é como exigir que um castelo de areia continue intacto diante da maré.

Akegarasu Haya vai utilizar o exemplo do peixe em um aquário para ilustrar o apego: Há um peixe muito bonito nadando em um aquário. O peixe, para continuar vivo e manter sua beleza, precisa estar sempre nadando, sempre em constante movimento. Mas uma pessoa, encantada com esse ser, o retira do aquário para tentar preservar ele em uma forma fixa, assim acaba com seu movimento e o mata. É isso que todos nós fazemos quando nos apegamos as coisas. Quando nós tentamos transformar algo impermanente em uma figura permanente, nós tiramos a vida daquela coisa, transformamos em uma imagem mental que nunca corresponde a realidade verdadeira. Quanta ignorância a nossa! As vezes chega até a ser cômico o tanto que a gente tenta resistir, de modo tão fútil, a uma natureza tão incontornável.

O apego não é só aquela tendência emocional comum de querer estar sempre ao lado de alguém ou de algo. É, nesse caso, algo mais sutil, como essa vontade de estabilizar as coisas, de tentar torná-las permanentes. Fazemos isso com tudo que gostamos e quase sempre nos frustramos quando essas coisas chegam ao fim, porque nós vivemos a ilusão, mesmo que inconsciente, de que alguma coisa nesse mundo pode trazer felicidade permanente. A necessidade mais urgente é aceitar que a mudança é a regra e não a exceção. Devemos parar de fazer a mesma coisa e agir do mesmo modo procurando resultados diferentes.

A consequência mais lógica é que, para isso, é necessário fazer o contrário do que normalmente fazemos. Em vez de afirmar as nossas crenças, nós devemos as negar. Em vez de acreditarmos em tudo que passa na nossa cabeça, nós devemos desconfiar e investigar mais profundamente. Antes de nos entregarmos automaticamente a um sentimento, antes de nos apegarmos a algo que gostamos ou rejeitarmos o que desgostamos, devemos nos perguntar se isso vale a pena. Em vez de dizer sim para tudo que pensamos, devemos sempre dizer não. Nunca permitir nos permanecer numa base, nunca nos mantermos confortáveis. É a base que mata a vida, a vida que é movimento constante e imparável. Queremos viver essa vida, e essa vida é a vida da negação de qualquer ideia fixa, a vida de destruição e criação.

3. A autonegação

“Nenhum homem conquista uma nova vida sem temer o fogo que consumirá seu corpo e alma, sem lamentar sua chegada. Mas nenhum homem conhece a iluminação sem se render a esse fogo do inferno.

Minha única iluminação são as chamas da cremação total do meu eu.”

(Akegarasu Haya, The Burning Self)

Quando nos apegamos, é como se colocássemos paredes em nossa mente, a visão de mundo fica cada vez mais estreita e focada no objeto desejado. Negar esse apego é perceber que a vida real é como um grande campo aberto, não como um corredor direcionado a sala do futuro ou a sala do ideal. O momento de agora é sem paredes, totalmente ilimitado e sem nenhuma base para nos apoiarmos. Esse apoio, essa base, é o que limita a experiência.

Vivemos sempre cheios de expectativas em relação ao futuro e a vida volta e meia nos lembra o quão inúteis são todas essas expectativas. Não foram diversas vezes que nos frustramos por conta de algo que acreditávamos que aconteceria mas que, na verdade, ocorre o oposto? Essa quebra de expectativa, essa destruição desse desejo inicial, não é algo ruim, é ela que nos permite levar a vida como ela é, e não como nós queríamos que ela fosse. Tudo que temos é a vida real e nada mais, o apego é uma luta contra a vida para afirmar a identidade, e a luta contra o apego é uma luta para afirmar a vida.

Se o apego consiste em transformar o movimento em estabilidade, então a prática espiritual consiste justamente em desfazer continuamente essas estabilizações. Shuichi Maida dá o nome de autonegação a esse processo. A prática espiritual é uma batalha constante contra a reificação. Nos momentos de alegria, surge a oportunidade de nos lembrarmos da impermanência de todas as coisas. Nos momentos de saúde, devemos nos lembrar da iminência da morte e da doença. Nos momentos de sede, devemos lembrar que até agora nenhuma das coisas que conquistamos trouxe felicidade absoluta. Não permaneça em nenhuma ideia, negue completamente tudo o que acredita.

Essa negação completa não é uma negação que nega uma ideia para afirmar outra. Se você nega A para afirmar B, você não está simplesmente negando A, você está simultaneamente afirmando B, então seria uma negação incompleta. O ponto aqui não é trocar uma coisa pela outra, mas ficar sem coisa nenhuma. Isso pode ser meio estressante, já que a gente costuma achar que as coisas devem ter uma conclusão ou que a gente deve afirmar algo sobre qualquer coisa. Mas, quando a gente para para pensar, isso é só uma visão arrogante do nosso eu. “Eu preciso falar algo sobre isso! Sob a minha jurisdição, nada pode ficar sem conclusão!”. A vida que a gente vive (quando realmente vivemos!) não é uma vida de afirmações, é só uma vida comum. A imagem popular do ser iluminado é daquela pessoa que tem uma resposta para tudo, que sabe tudo sobre as coisas importantes do mundo, mas na verdade o ser iluminado é aquele que já não tenta mais justificar tudo. É aquele que entende que a tentativa de racionalizar as coisas é justamente a tentativa de prender a realidade em caixas. É uma ação inútil e tosca do nosso ego.

Essa autonegação não é um exercício ascético, mas uma disciplina mental que podemos exercitar o tempo todo. Uma pessoa pode praticar a autonegação independentemente do modo de vida que leve. A autonegação é simplesmente não nos permitir o conforto mental, já que todo apego traz sofrimento. Quando você se ver apegado a alguma ideia, lembre do não. Diga não a essa ideia, por mais prazerosa que ela possa parecer. Até porque, quando investigamos profundamente qualquer ideia, nós percebemos que ela já não tinha base nenhuma. O sofrimento é isso: colocar uma essência onde não se tem. Um exercício muito simples para perceber o quão vazias são as nossas crenças, é a investigação livre delas. Se você olhar bem no fundo da sua crença, não vai encontrar nada que sustente de modo absoluto, só vai encontrar causas e condições que a fizeram existir e que estão, também, em mudança nesse exato momento.

Cada vez que nos pegarmos acreditando fielmente em algo devemos quebrar aquele pensamento com um martelo sem um pingo de dó. Nesse sentido, é importante cultivar uma desconfiança do samsara, Mestre Shinran nos ensinou isso quando disse que “neste mundo impermanente, semelhante a uma casa incendiada, tudo é falso e mentiroso”. Podemos dizer, de certo modo, que a autonegação é a luta contra o Eu.

4. A afirmação da vida

“Afirmação absoluta significa que “não há ação do eu” (mu-i). Significa que todas as coisas são afirmadas por um poder além do eu. Qualquer afirmação feita por nós, seres humanos, seja sobre nós mesmos ou sobre o outro, não são nada além de autoafirmação. Quando nossa autoafirmação é totalmente destruída e nós “não temos mais ação do eu”, quando nós reconhecemos que todas as coisas acontecem e existem por conta da vida eterna, então nós somos libertados e temos a liberdade para fazermos o que quisermos. Isso é afirmação absoluta.”

(Shuichi Maida, The Crucial Essence of Shinshu)

O aspecto mais importante da autonegação é que ela não é uma negação parcial, mas sim uma negação completa. Se fosse uma negação parcial, ela traria apenas desespero e melancolia, já que ainda manteria viva a ideia de que “a vida deveria ser algo além do que ela é atualmente”. Então a negação completa deve também se negar no final e se tornar afirmação completa. O processo não é “eu disse não e agora vou dizer sim”, o processo é a conclusão espontânea de que depois que tudo é negado, não há mais nada a se negar, então o não vira sim sem deixar de ser não. Esse é um movimento natural. Para realmente podermos viver sem ressalvas, devemos antes destruir o que tomávamos como precioso. A autonegação é o processo de deixar de viver o Eu para viver a vida.

Enquanto a gente ainda se entrega a nossos apegos, nós deixamos de viver a vida como ela é. Enquanto eu ainda estou vivendo através de um objeto mental que eu inventei e que, como foi mostrado, nunca vai corresponder a realidade impermanente, eu não vou poder viver a vida real, a vida da mudança. O que fica claro é que o objetivo da autonegação não é um nojo do mundo, é abraçar o mundo inteiro.

Nós pensamos que o amor a vida só pode ser expresso através do apego e da sede, mas o verdadeiro amor a vida só pode ser vivido quando superamos o apego e a sede. Quando estamos apegados, nós não nos apegamos a nenhum objeto real e sim a nossa projeção mental daquela coisa. Quando estamos com sede, não queremos nada que podemos ter, adiamos a vida para o futuro. Tanto o apego quanto a sede são negações da vida, negações do agora. Até agora nós não vivemos a vida plenamente, e só vamos conseguir aproveitar a vida real quando começamos a negar as ilusões do nosso ego.

Não existe nada que não esteja mudando, não existe nada que exista de forma permanente. Então como poderíamos amar algo sem antes negar a imagem falsa que criamos desse algo? Amar o mundo através do apego é igual amar uma pessoa através de histórias sobre ela, mas sem nunca conhecer a pessoa verdadeiramente. Então eu peço para que deixemos de amar o falso, o inventado pelo nosso ego, e comecemos a amar o real, a vida ilimitada e sem barreiras.

Namu Amida Butsu!