O Catuṣkoṭi nagarjuniano aplicado a soteriologia da Terra Pura
Shaku Shin Gi

O uso do Catuṣkoṭi aqui não visa estabelecer uma posição correta, mas criar um campo de esgotamento conceitual no qual a entrega (shinjin) se torna possível.
1. A salvação é realizada pelo bonbu somente (auto-esforço/jiriki)
“A salvação ocorre pelo meu esforço e minha prática ou pela fé que brota de meu ser independente.”
Negação:
1. O bonbu é karmicamente cego, isso significa que somos afetados pelo nosso peso karmico de vidas passadas e da vida presente. Não somente somos afetados por esse karma mas também não podemos observar de forma exata onde esse karma surge e quais suas consequências.
2. O ser como um ser independente não existe. Somos seres condicionados e que dependem da totalidade da existência, isso significa que não é possível se iluminar por um esforço próprio separado dessa totalidade. Dependemos absolutamente das causas e condições que fazem a nossa existência aparecer como real.
3. A visão do auto-esforço causa apego ao eu como algo real e absoluto, esse apego é como carvão jogado ao fogo das ilusões, se essas ilusões são potencializadas o Nirvana, a cessação do apego, não pode ser alcançado.
4. A visão do auto-esforço cria uma visão teleológica do Nirvana como algo a ser alcançado lá. O Nirvana, por definição, é o incondicionado, ou seja, se ele fosse algo a ser alcançado isso se tornaria uma condição e deixaria de ser Nirvana. (“Existe, bhikkhus, o que não nasceu—o que não é—o que não é fabricado—o que não é condicionado. Se não existisse o que não nasceu—o que não é—o que não é fabricado—o que não é condicionado, não haveria a situação na qual a emancipação do nascido—do que é—do fabricado—do condicionado seria discernida. Porém precisamente porque há o que não nasceu—o que não é—o que não é fabricado—o que não é condicionado, a emancipação do nascido—do que é—do fabricado—do condicionado é discernida.” — Udāna 8.3)
2. A salvação não é realizada pelo bonbu, mas por Amida como uma força externa
“Amida é um ser externo a mim que me salva por fora de mim.”
Negação:
1. Isso é uma forma de dualismo teísta onde Amida é um ente existente separado da humanidade e do mundo. Esse dualismo não se sustenta pois significaria que Amida é um ser auto-existente, mas se fosse auto-existente ele não poderia interferir na nossa existência sem se “contaminar” por ela, ou seja, não poderia salvar ninguém.
2. Se Amida não é auto-existente isso significa que sua existência depende da nossa, ou seja, também não podemos ser salvos totalmente fora Dele, temos de fazer parte Dele e vice-versa. Isso foi expresso de modo poético por Asahara Saichi da seguinte forma:
“De acordo com o entendimento de Saichi
Ki e hō são um:
O Namu-amida-butsu não é outro sequer ele.
Esse é o entendimento de Saichi:
Ele tem flores nas duas mãos,
Tirando de sua mão de um lado e dado como presente de outro.”
3. Pode ser argumentado que Amida é auto-existente por ser incondicionado, mas isso significaria que Amida é idêntico ao Nirvana, o que também é aceitável, mas como foi argumentado na negação primeira, o Nirvana, por ser incondicionado, não pode ser separado do condicionado, então uma salvação totalmente externa também se mostra filosoficamente instável dentro de uma ontologia relacional ou dependente.
4. Se Amida fosse um ser puramente transcendental e separado do mundo em sua totalidade falar sobre ele seria impossível ou inútil, já que uma transcendência absoluta não pode ser alcançada e um ser absolutamente transcendental não pode salvar ou sequer se importar com o sofrimento dos seres comuns. Um ser totalmente transcendental é funcionalmente inexistente.
3. A salvação é realizada pelo bonbu e por Amida em conjunto
“Eu confio e Amida faz o resto” ou “Eu faço uma parte e Amida outra”
Negação:
1. Essa posição é uma forma de auto-esforço moderada. Ainda comete os mesmos erros da primeira e da segunda posição de acreditar em uma separação entre mim e Amida.
2. A posição da cooperação/salvação em conjunto ainda afirma uma necessidade do meu esforço, então exclui e condiciona a salvação a alguns seres que tem o esforço correto.
3. Como já foi estabelecido na primeira negação, o bonbu é um ser com grande mau karmico acumulado por muitos kalpas, então quem seria ele para julgar qual esforço é correto ou incorreto?
4. Amida é descrito como ilimitado, então seu poder também é ilimitado, ou seja, esse poder não conhece limites. Sem conhecer limites, qual seria a necessidade do auto-esforço do bonbu?
4. A salvação não é nem do bonbu, nem de Amida, nem de ambos (sem salvação)
“Na realidade ninguém é salvo e ninguém conhece a salvação nem pelo poder próprio (jiriki) e nem pelo Outro Poder (Tariki)”
Negação:
1. Essa posição não é possível. O Nirvana é incondicionado, ou seja, ele não tem condições, logo não pode estar separado do condicionado. Para ninguém ser salvo tem de existir algo chamado de “salvação” e algo chamado de “não-salvação”. Essa posição é uma preferência a “não-salvação”, é uma posição que coloca o nosso mundo como um mundo com sofrimento e apego reais porém sem a possibilidade de libertação desse sofrimento e apego. Porém, para existir a não-salvação, a salvação também tem que ser real, como exposto anteriormente. E essa salvação não pode ser apenas real como tem que ser relevante e não-transcendente, como posto na segunda negação. Negar isso seria condicionar o Nirvana.
2. Isso é um niilismo pessimista, é a escolha do sofrimento ao invés da libertação. Quando escolhemos “isso” ao invés “daquilo” afirmamos tanto a existência “disso” quanto “daquilo”. Então a não-libertação não pode existir sem a libertação e também não pode ser separada da libertação.
3. É coerente afirmar que a salvação não é algo a ser alcançado exteriormente, mas afirmar a salvação como não-existente requer um dualismo sútil e uma dicotomia entre salvação e não-salvação.
4. Afirmar a não-salvação significa afirmar o sofrimento sem fim de todos os seres sencientes, mas os mestres já demonstraram a libertação efetiva e universal tanto na prática quanto na teoria. O apego ao sofrimento da não-salvação cria um sistema de retroalimentação negativo e também é uma forma universalista de afirmar uma categoria como absoluta e independente. Se qualquer categoria pudesse ser absoluta e independente, essa categoria seria idêntica ao Nirvana e, se qualquer categoria é idêntica ao Nirvana, isso significa que a libertação é possível.
Questão: Os mestres e patriarcas da Terra Pura afirmaram a salvação pelo Outro Poder (Tariki) explicitamente, mas a segunda negação parece contrariá-los, como isso pode ser resolvido?
Resposta: A segunda negação não é, de forma alguma, uma negação do Tariki enquanto função soteriológica, mas sim uma negação do Tariki como uma existência substancial de Amida. Nesse caso o Tariki não deve ser entendido como uma afirmação de Amida como um ser substancial e transcendental, mas sim como uma ferramenta pedagógica de negação absoluta. O grande mestre fundador, Shinran Shonin, já dizia que no momento de salvação tanto Amida quanto nós sumimos no Nirvana da não-forma:
“Sabemos que a natureza búdica é este coração atento de fé confiada (shinjin).A natureza búdica é a verdadeira natureza da realidade, e a verdadeira natureza da realidade é a corporificação cósmica do Buda. Por isso, falamos de duas corporificações cósmicas do ‘Buda [Amida]’: a corporificação cósmica em si, enquanto natureza da realidade, e a corporificação cósmica enquanto expressão heurística. A corporificação cósmica em si, enquanto natureza da realidade, não possui forma nem cor; … as palavras são insuficientes na tentativa de descrevê-la.”
Nesse sentido, o Tariki funciona não como afirmação ontológica de um ente salvador, mas como um dispositivo de esvaziamento que culmina na desaparição simultânea do sujeito da salvação e de seu objeto.
Namu Amida Butsu
Namu Amida Butsu
Namu Amida Butsu
“O Buda Amida é a descoberta do Vazio Absoluto. Ele não é algo ou alguém em quem devemos nos apegar ou acrescentar o nosso eu.
Muito pelo contrário, o Buda Amida é uma espada afiada de sabedoria que decepa as mãos atadas ao eu. A lâmina afiada da espada corta e destrói impiedosamente o tolo, carregado de desejos e sofrimentos.”
Shuichi Maida
